
Ontem a conversa foi sobre memória. Meu marido é daquelas pessoas que lembram das coisas e gostam de lembrar delas, fica horas na rede com meu filho olhando fotos antigas e contando histórias do passado, pelo que sou grata, pois é algo que raramente faço. Muitas vezes, revisita a enciclopédia dos momentos vividos com grande prazer, desenha o caminho da identidade no tempo adicionando-lhe novas cores, tem certezas em relação ao que passou que eu nunca poderia ter e recai também nas feridas de uma memória que não cicatriza.
Não sei exatamente por que, mas não tenho nem cultivo esse hábito. Pode ter a ver com minha prática budista de mais de vinte anos, mas acho que já era assim antes disso. Amigos e parentes se referem a meus esquecimentos como se fosse uma característica minha, dizem literalmente “ela não se lembra de nada”, fazem graça e até me chamam de Dory, a personagem desnorteada do desenho animado “Procurando Nemo”. Hoje em dia, imagino que foi também minha forma de lidar com as adversidades. Afinal, esquecer delas ajuda a não afundar. Isso não significa que eu não tenha memória, pois falar mais que um idioma requer um acervo variado de palavras que mal ou bem têm que estar disponíveis rapidamente.
Ter uma memória seletiva pode ser vantajoso, mas também nos deixar em apuros. Em um mundo sem certezas, os contornos da realidade muitas vezes desaparecem. Os pontos de referência são mais ondas que pontos, vêm e vão e não oferecem amparo. Quando não nos identificamos com o que fomos, perdemos a noção de quem somos. Ao não definir as coisas, os nomes passam a ser conjuntos de letras que mastigamos sem extrair grandes sentidos. Perde-se o mapa, acha-se o território, e a vastidão nos expande ao mesmo tempo que engole. Não é bom nem ruim, é o espaço para além das noções, e é preciso sempre voltar à terra, num estranho esforço de enraizamento.
Na era dos conteúdos rasos que passam em grande velocidade, cada vez mais nos encaminhamos para um lugar sem memória, mas também sem verdade, em que nem mesmo os fatos existem e todas as referências foram perdidas. As histórias são distorcidas e redesenhadas a partir do interesse daqueles que detêm o poder da informação. Sem o senso de pertencimento, esquecemos até mesmo do que mais importa, de nossa casa comum, de tudo que é essencial e nos mantém vivos. Urge uma nova forma de existir, além da memória, mas ainda assim profundamente ancestral. Além da extinção. Ao mesmo tempo que precisamos nos libertar dos erros passados, eles precisam ser absorvidos, transformados, transcendidos, para chegarmos a um lugar realmente diferente que, em vez de destruir, nos possa elevar.
