A Eterna Dívida (Quando as Nuvens Dançam – Reflexões de Quarta-Feira)

Nascemos endividados. Temos dívida com nossos pais, que nos trouxeram ao mundo e nos proporcionaram todo o necessário para continuar vivendo. Essa já é uma enorme dívida que levamos toda uma vida pagando e nunca quitamos. Quando nos tornamos adultos, a essa primeira dívida fundamental são somadas muitas outras dívidas. Por exemplo, há aquelas dívidas mensais, que chamamos de contas e impostos, mas que não deixam de ser dívidas, pois muitas pessoas pelejam para pagá-las em dia e muitas vezes não conseguem. E há as outras, as dívidas que o sistema nos estimula a ter, pois sem contraí-las acaba sendo difícil ter o mínimo e criar a estrutura necessária para pagar as dívidas de praxe.


Como se não bastasse, não apenas as pessoas comuns, a maior parte da população mundial, como também os países vivem endividados. A dívida externa de um país como os EUA chegou aos trilhões de dólares e a do Brasil é de trilhões de reais. Os problemas da economia nacional e internacional acabam levando a muitos outros, como a inflação, por exemplo, que levam a verdadeiras crises econômicas, afetam e endividam ainda mais a população. Os economistas provavelmente sentem um grande prazer em analisar esses padrões, mas não é preciso entender de economia para perceber que há algo de muito errado. O grau de sofrimento provocado por esse tipo de cultura é assustador. Vivemos na falta constante. Todos correm atrás do que não têm nem nunca terão. Inúmeras vezes, as dívidas chegam a um ponto de não retorno e engolem completamente a pessoa endividada, o que frequentemente leva à depressão, ao desespero e ao suicídio. É preciso se endividar para pagar dívidas.


Será a dívida nosso modo de funcionamento, nosso padrão de comportamento, nossa herança ancestral? A corrida aparentemente só para com a morte, mas logo é herdada pelos descendentes. Como é possível criar um mundo melhor se os fundamentos morais deste mundo não se sustentam? Criamos uma grande ilusão e nos tornamos reféns dela. Precisamos trilhar um caminho de volta para o que é essencial. Não estamos reconhecendo a maior dívida que temos, para com a própria existência. Ninguém quer uma vida infeliz e miserável, mas quando vivemos na ilusão, a infelicidade é inevitável. Repensar a vida é urgente. Mais do que nossos bens ou nossas dívidas, nossos filhos herdarão o que somos. Somos a falta do que não temos, por exemplo, a falta de tempo, por trabalharmos demais para pagar todas as contas, ou a falta de dinheiro, por termos sempre mais e mais dívidas, ou somos a soma de tudo que fizemos? Quais são nossos parâmetros de bem-estar? Vivemos na expectativa, queremos sempre mais do mundo, dos outros, da vida, sem nunca recebermos o suficiente ou honramos e compartilhamos o pouco que temos? Qual dívida ainda nos resta por pagar para enfim nos libertarmos?


art by KlarEm

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