Notas de Cabeceira

9 Notas de Cabeceira (Quando as Nuvens Dançam – Reflexões de Quarta-Feira)

Faz tempo que desisti dos diários. Essa prática me acompanhou por muito tempo, me fez um bem imenso, mas as turbulências e responsabilidades que o passar dos anos trouxe fizeram com que eu me concentrasse no absolutamente necessário. Neste percurso, perdeu-se muito da escrita. Será que ela é absolutamente necessária? Talvez nunca tenha sido, mas há algo ali. Um mistério. Quase uma superstição, ou será uma obsessão? Quando não escrevo, tenho a sensação de que algo em mim está um pouco morto. É como se eu tivesse desistido, quase um limbo. Um meio-termo de existência, à margem de mim. Ainda assim, essa condição marginal não deixa de ser interessante. Especialmente quando escrevo sobre ela.

Não posso negar que amo essa noite escura que é esperar pela próxima palavra, que aflora, seguida de outras, uma canção que já existia em algum lugar e surge do fundo do silêncio, auspiciosa e absoluta como se sempre tivesse existido. As palavras são pequenos partos ou talvez eu pense assim porque sou mãe. Quando meu filho chegou, ele me esvaziou de mim de maneira tão profunda e bem-vinda, que o restante ficou suspenso no ar, como roupas penduradas no varal. Hoje, acompanho seu crescimento e meu envelhecimento, que desemboca na velhice de minha mãe, essa corrente de tempos e contratempos, com grande curiosidade, enquanto saboreio o desnorteio de um mundo pandêmico. A dor do corpo me ancora numa lentidão quase forçada que me traz de volta. Para as palavras.

Talvez eu seja apenas uma entre tantos que escrevem por escrever, não por saber, mas justamente por não saber. Não porque há algo por acontecer ou uma grande verdade a afirmar, mas porque é um fim em si mesmo, como eu sou um fim em mim mesma. Escrevo como respiro, escrevo porque existo. Quando vejo as palavras se formando através de minhas mãos, sei que estou aqui. Ainda estou aqui. Chovendo na terra fértil da vida em mim. Depois, o que sai de mim já não é mais meu. São nômades, as palavras. São filhas do mundo. Bolhas de sonho soltas ao vento. Talvez alguém as veja antes de desaparecerem, talvez um sorriso acompanhe seu voo feito de nada e algum coração bata mais forte, ou bata diferente, porque as viu voar.

Entretanto, hoje em dia, em vez de grandes, meus sonhos são silenciosos. Há espaços onde antes havia movimento. Não estou mais só nelas, nas palavras, mas sou também o branco ao redor delas. Não sei muito bem o que isso significa nem o que isso faz de mim, não sei mais se sou escritora ou se consigo me definir. Talvez não caber em definições seja uma volta ao início. Quando eu tinha oito anos, escrevi meu primeiro livro sobre uma leoa que saía da parede e falava comigo. Penso nela e ela reaparece, memória peluda de devaneios sem fim. Foi o tempo no qual as divagações em meu quarto começaram a ser mais interessantes que a realidade. Pergunto o que minha amiga felina tem para me dizer hoje e ela me responde: “Vem comigo. Vamos atravessar essa parede. Vem ser selvagem entre as árvores e os sentimentos, como os poetas e as feras. Mergulhe na página em branco.”

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