Ler um Livro

Ler um Livro (Quando as Nuvens Dançam – Reflexões de Quarta-Feira)

Ser absorvido pela leitura é místico. Somos fusão com as palavras e, ao mesmo tempo, transcendência delas. É um grande mistério o momento no qual nos fusionamos, como se descêssemos por um escorregador dimensional entre as linhas. Todo o resto se dissolve. De repente, estamos lá. Acompanhando aquele personagem, sentindo o que ele sente. Os sentimentos dele se misturam aos nossos e, quando fechamos o livro, já não somos mais os mesmos. Levamos aqueles novos movimentos em nós, os transportamos clandestinamente em tudo que fazemos.

Há uma grande e silenciosa alegria nesse processo de despertar facetas desconhecidas. Onde estava aquela sensação antes de lermos sobre ela? A sequência de palavras nos encaminhou para a experiência de algo nosso que desconhecíamos. Não é como ver um filme nem como assistir a um espetáculo, é bem mais oculto e mágico, é achar um novo universo, entre uma página e outra. É a exigência velada de uma troca sem reservas com o inconsciente, o mergulho que provoca o súbito e inevitável borbulhar de imagens que emergem, aturdidas e brilhantes, do fundo do oceano que somos.

Para quem gosta de escrever e tenta decifrar o caminho que leva à dissolução do leitor, o único que vale a pena, a técnica é uma pequena parte. Importantíssima, como escalar uma montanha desafiando o abismo, enfrentando o monstro sagrado, disposto a nos engolir a qualquer momento. O treino exaustivo leva à incorporação crescente do saber metódico, que só pode nos servir plenamente quando esquecido. Depois, o foco se amplia, sem ser perdido de todo, a visão se abre: o Leviatã pode enfim se manifestar. As profundezas abissais se revelam e nos conduzem, as rochas passam a falar. Arriscamos enfim a viagem para lugares onde nunca estivemos, mas sempre quisemos conhecer, recantos que esperam por nós, nos quais respirar faz sentido. A pessoa que escreve e aquela que lê se tornam uma coisa só, indissolúveis e interligadas pelos espaços vazios e dançantes, suspensas entre palavras e linhas. Ali onde a música acontece.

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