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Fui picada na mão direita por uma formiga de fogo. Depois, fui picada na mão esquerda por uma formiga de fogo. Elas me contaram que eu tinha que usar as minhas mãos para incendiar corações da mesma maneira que o meu estava incendiado, pois um coração que não compartilha seu próprio fogo acaba queimado.
Falando nisso, já tive sonhos recorrentes de estar perdida. Não chegam a ser pesadelos, mas são limbos de angústia. Onde é a minha casa, eu me pergunto. Entro em um táxi, a cidade é grande, lembro vagamente de já ter tido um lar. Surge o nome de uma rua da infância, o táxi começa a andar, tento em vão reconhecer onde estou. Ao acordar, entre sonho e realidade, a coisa continua. As perguntas se aprofundam. Para onde vou? O que significa ter uma casa?
Será ter uma casa essa sensação de correr contra o tempo para arcar com contas constantes e infinitas, aparentemente impossíveis de pagar? Olho para o mundo ao meu redor e vejo a maioria das pessoas assim, sem casa, seja ela emocional, espiritual ou física. Sem uma ou duas ou sem todas elas. De repente, aparece uma pressão no peito, uma dificuldade de respirar, ou outra coisa qualquer, uma queda no abismo, uma fuga ou um desvanecimento, qualquer saída pela tangente, para tentar aprender a lidar ou finalmente escapar de um mundo aparentemente hostil em que nos sentimos sós com nossos fardos insustentáveis.
E aí vêm a meditação e a medicina. Aí vem olhar mais fundo. Por dentro e por fora, nos noticiários e nas redes sociais, nas ruas e nas histórias que escutamos pelo caminho: o sofrimento é onipresente. Tudo é calamidade, todos fora da casinha. Quando não é a dor do corpo, é a dor do medo, da dificuldade, da decepção. Não se trata de pessimismo. É o pano de fundo da realidade. Minha iniciação nessa nobre verdade foi durante o parto de meu filho. Foi quando entendi, visceralmente, o canal ardente que atravessamos ao chegar, ao viver e ao partir. Um mundo que nos aperta, sacode, dilacera, para então nos deixar sumir.
Um mundo torto como a árvore que não chega ao céu em linha reta. Onde o florescimento é o beijo da terra com o cosmo, onde só o amor pode nos dar o sentido e a força necessária para seguir em frente. Por isso, levanto. Perdida e reencontrada. Levanto e canto e chamo o rezo e espanto os males com a poesia. Levanto e deixo que jorre o coração aberto pela Deusa. Aqui estou, disposta a me alegrar. Em meio ao caos e à tristeza, no mantra do amor revolucionário, na alegria loucamente sagrada, no cafuné cósmico da existência, eu decido que a mudança de paradigma já está aqui. Como eu, como as crianças e as borboletas.
Eu amo, então existo.